-Relaxe os dedos e respire à cada ataque. Se não houver calma e paciência, não acontecerá nada. Você tem de deslizar suavemente e não saltar e aterrisar destruindo o que há embaixo. Quer uma boa imagem? Imagine-se pisando em ovos e a única maneira de não destruí-los é flutuar de onde você está até onde deseja ir, com extrema precisão...
Os olhos femininos o observavam sentado na enorme janela do salão, com uma perna a balançar displicentemente. A camisa amassada com mangas dobradas na altura do cotovelo em nada lembravam o homem de fraque na noite anterior. Suspirou, olhando a partitura à sua frente, enquanto sentia a mão ágil arder levemente. Ele nada olhava, apenas fitando para fora, esperando por um pouco de chuva na fria tarde de outono. Ajeitou a mão direita e iniciou o som que logo foi cortado por um som seco de palma.
-Novamente... Suave. O primeiro ataque tem de ser vigoroso, sim, mas com suavidade. Golpeie seu inimigo com um lenço de seda.
Por que tantas metáforas... Não seria mais simples pegar o instrumento que jazia encostado no estojo sobre o piano e mostrar de uma vez? Deuses...
Seu som foi surgindo timidamente dessa vez e aumentando aos poucos, enquanto a música ia crescendo através dos seus dedos. O arco agitava, e balançava à deriva, sem perder qualquer firmeza. Foi afundando lentamente, não percebendo a madeira estalando às suas costas, enquanto os olhos sérios observavam por cima do seu ombro. Não notou a mão delgada que veio por baixo da sua cintura, sorrateira, seguindo a linha do corpo com suavidade até chegar próxima ao cotovelo esquerdo.
-É aqui, a sua fraqueza... murmurou enquanto deu um toque de leve no cotovelo da moça que interrompeu a música com um leve grito ou uma total desafinação, em meio à um suave arrepio. Sorriu.
-Seu cotovelo fica sempre muito para fora... Por isso os acordes são tão complicados e sua mão dói... Novamente... –Falou com calma, afastando-se respeitosamente.
Jogou os cabelos com cuidado sobre o ombro, fechando e abrindo a mão por alguns instantes enquanto estudava sua estratégia de ataque dos compassos 47 até o 56. Decidiu cercar e dançar, ao invés de saltar para um lugar confortável. Queria brilho... Havia tanta escuridão naquele lugar...
Retornou um pouco e tomando fôlego, mergulhou até o ponto em que havia parado. As coisas pareciam funcionar bem, sentia que aos poucos seu corpo ia ficando mais leve e tudo ia se enchendo de luz, até que estancou perante um grito horrendo que a derrubou.
-Urgh, maldita corda velha... Te contei que essa aqui está só o fiapo? – Soltou uma risada enquanto observava o violino que tinha nas mãos. Uma bela cópia de Amati que o acompanhava desde sempre. Adorava aquela pequenina caixa de madeira por motivos diversos e muito deles que mal conseguia se lembrar. Sem se lembrar de sua pequena discípula no recinto, afinou lentamente o instrumento e fez salpicar alguns harmônicos doces aqui e ali, como um canto de pássaro. Lembrado por um trovão de seu expediente, aproximou da menina, se posicionando de forma que ela pudesse ver o instrumento.
-Já dançou alguma vez? Tango, de preferência. Perceba uma coisa nos meus pés. O passo mais básico é este. – Deu um ou dois passos, deslizando os tênis surrados pelo chão antigo, e voltando depois de onde saira. - Sua mão tem de dançar sobre o espelho. Veja.
Com suavidade, foi tocando o mesmo trecho que ela, bem lentamente. Cada subida ou descida levava consigo um glissando mínimo, mas audível. Foi por mais algum tempo, até que parou.
-Suas mudanças tem de ser suaves, não solavancos, nem engasgos. Você tem ímpeto, tem paixão, tem vontade... Mas lhe falta uma ou outra base para deixar isso perfeito. Já pude perceber o quanto você adora sentir a música e dar sua visão sobre, tanto que muitas vezes muda muitas coisas que eu anoto ali. – Sorriu, vendo a garota apenas olhar para a janela que tremia com a chuva, impaciente.
-Isso é ótimo, Sophie, mas como eu disse, falta o básico. Essa é a chave que você está procurando nessa maldita partitura, mas não encontra. Não é a técnica em si, mas a idéia que ela carrega. Tente de novo. E cuidado com esse cotovelo.
Afastou-se novamente, deixando a menina à sos com seus fantasmas e pensamentos. Ela fitava com os olhos grandes a imensidão de notas à sua frente, tentando ver algo além. Cotovelo, deslizar, dançar... Adoraria sentir aquelas mãos dançando... Não, não, as suas mãos dançando... Maldição de aula.
Colocou-se em guarda e armou-se com sua espada. Primeiro golpe veio vigoroso, seguido de outro e mais outro, enchendo toda a sala. Um acorde derrubou uma pequena unidade de infantaria que tentava aproximar-se dessa guerreira ensandecida. Movia-se com a graciosidade mortal de um sabre, bailando sobre um espelho negro que apenas refletia o som de cada passo que dava.
Os olhos foram se fechando e a música abrindo. Sentia a chuva lá fora, mas dentro dela, causando a tempestade de escalas cromáticas em torrentes, cada vez mais graves e poderosas. Ia inundando cada fresta daquela sala cheia de manchas até arrebentar todas as paredes numa dissonância terrível e longa. Fora-se a primeira página.
O tom maior veio logo, tão sereno e calmo, a levantando daquele chão imundo e fazendo brotar um pequeno sorriso da face sardenta. Suas duas e, as vezes, três vozes iam conversando entre si, sempre se resolvendo à cada briga bem planejada pelo destino. Saltava sobre troncos caídos, apoiando-se em seu cajado, com a leveza de um coelho. O caminhar logo foi se intensificando até virar uma corrida alucinada de trinados...Seu rosto à perseguia, tinha de fugir, não... Aquele sorriso, não, não... E veio novamente o trovão.
Entrou na dissonância com violência demais, quase fazendo com que caísse no abismo. Parou por míseros instantes, necessários estes, sem dúvida, tomando o fôlego para a seqüência que viria. A subida era violenta e estreita, com paredões de rochas pontiagudas de ambos os lados. Se apressou muito no começo e quase escorregou, lembrando-se de ir rápido, mas sem perder o ritmo. Seu cotovelo batia aqui e ali, até que a voz murmurou suave, na sua mente "Seu cotovelo sempre fica muito para fora...por isso é tão complicado..." Dito e feito, encolheu-se e foi de pedra em pedra, sempre cuidando para manter-se nessa posição segura. Por fim, atingiu o topo e de lá olhou, sem conseguir conter uma melodia doce que assoviava enquanto contemplava a vista... Ainda mais uma etapa...
Sacou a espada e golpeou as sombras que surgiram logo à frente, fazendo o aço ressoar gravemente. Tinha de seguir. Seus pés marcavam o passo com força, fazendo o chão vibrar e tremer a cada pisada. Seguiu por montes que subiam e desciam com suavidade, deixando marcas de sangue aqui e ali, quando golpeava fortemente um adversário que tentava se por em seu caminho.
Ouvia as trombetas, estava mais próxima, não podia fraquejar. Seu corpo começava a demonstrar um cansaço imenso, sentia a respiração na nuca. Não, não... Sem olhar pra trás, isso seria um erro. Tinha sempre de prever seu caminho, o movimento dos seus inimigos, suas reações. Respirar, atacar... Golpeá-los com seda... tinha de ser a chave.
Parou junto ao portal que entraria para a ultima parte da sua jornada. Era isso. Observou o céu estrelado e suspirou. A chuva nunca dava trégua. Martelou tímpanos e vibrou cordas, sob o comando de um ser invisível. Era a hora.
Deslizou sua arma para fora da bainha com uma nota chorosa, seguida do silêncio mórbido que era cortado apenas pelos passos ecoados na escuridão. O ar pesado e grave, a escuridão que a abraçava... Precisava de luz... Brilho... Abandonou uma primeira abordagem e deixou-se seguir pelo instinto, fazendo com que pequenos pontos luminosos começassem a surgir. Sim, conseguia, o brilho... A mão... Suave, calejada, deslizando... Não...Não!
A distração quase lhe custou toda a empreitada por quase cair na armadilha para o qual vinha se preparando. Tomou fôlego e lembrou-se dos tênis surrados, indo com elegância e silêncio... Ele lhe espreitava da escuridão, mas só com os ouvidos... Tinha de acabar com ele...
Pôs se a caminhar, no começo com pequenos trôpegos ou solavancos, fazendo com que recebesse rugidos em resposta. O chão sob seus pés estalava, sentindo a presença cada vez mais próxima de si... Seria um único golpe, apenas um. Deslizar para ele e golpeá-lo.
Esperava, contando o tempo e ouvindo a respiração agitada, primeiros passos, primeiros deslizes, lentos, rápidos, certeiros. Um esbravejo, golpeou e foi rechaçada. Seria uma luta formidável. Cada golpe era aparado ou devolvido, mas nada atrapalhava a fúria que ela tinha dentro de si. Os arpejos eram atirados para atordoar aquele demônio que enfrentava. Sorriu, era a hora. Os tímpanos novamente, os trovões e chuva! Se aproximou e desferiu uma cadência de espadadas que foram retalhando cada vez mais seu adversário, o deixando quase indefeso. Era agora, não errar, deslizar. Juntou todas as forças, esquivando de uma tentativa de acertá-la e cravou a lâmina inteira na criatura que caiu com um baque surdo, ecoando por todo o lugar...
Observou a sua arma... Observou a si, depois da jornada que acabara de completar... Era tudo tão irreal.... Ofegava... E palmas às suas costas a assustaram, fazendo com que virasse, abraçando o violino, indefesa.
-Era isso, minha pequena... Você entendeu tudo... Creio que podemos encerrar por hoje...
Sorriu, colocando seu violino antigo na caixa e indo até perto dela, que ajeitava os papéis na pasta, colocando uma mecha de cabelo solto atrás de sua orelha. Ela o olhou, ainda atordoada com a música e aquele sorriso cretino...
-Nos vemos semana que vem, Sophie... Até logo.
Reverenciou-a com leveza e beijou a mão pálida, dando um sorriso com o arrepio que pode sentir roçando seus lábios. Afastou-se e sumiu pelo corredor, deixando-a ali, com toda a fúria e paixão que só aquela pequenina caixa de Pandora poderia demonstrar. Forma essa única que apenas eles compartilhavam, tornando-os cúmplices dos sentimentos e da sua arte.










